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sábado, 18 de julho de 2026

8



Seu nome tem 8 letras.

Oito em cadência.

Permanente.

A eternidade é subjetiva, amor.

Que dure o tempo que tiver que durar.

Bom pra ti, bom pra mim.

Bonito assim, a eternidade de um dia em paz com você.

De te ver existir e Florescer no concreto das ruas de SP.

Bonito assim, te ver acordar com um fEcho de luz.

Uma aventuRa amanhecer e encontrar seu abraço.

EmaraNhar.

E me perder nas ruas de Salvador com você.

Bonito, suas cicatrizes,
sua história,
seu sorriso,
Seu tom.

BoNito te ver.

Mãe.

Filha.

Amiga.

Amor.

Te admiro nos dias que desbrava e enfrentar o mundo.

Te admiro nos dias que se encolhe nos meus braços e pede colo.

Bonito, Duas iguais.

Não ter receio de ver a pele assim, nua e crua.

Teus olhos, meus olhos, admiram mutuamente.

Bonito como qualquer dia é dia de churrasco ou café.

De vinho ou risoto.

Liniker diria:

SO SPECIAL

Com você.

Oito.

Subjetivo.

A eternidade resumida em ti: BonitA.

"Teus olhos brilham tanto

E a melhor notícia foi viver você" 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Cíclico




Te vejo cair como uma folha de outono,
devagar,
mensurável a queda
é inevitável.

Outras,
te vejo cair densa,
força bruta,
espatifada no chão
e inesperada.
Também inevitável.

De uma forma ou de outra,
a queda fomenta o caos.
Um caos necessário,
porque é só nele
que novas trajetórias ficam visíveis.

Será assim, então?

Tão frágil o ser humano.
Frágil que precisa cair,
denso ou sereno,
para descobrir
o que é fraco
e o que é forte.

Ambíguo.

Além do mais,
descobrir também
que é possível continuar
com um trinco ou dois.

Porque não existe outro caminho,
não é mesmo?
Não existe uma reposição perfeita do que se partiu.
O que foi um dia
jamais voltará a ser,
bom ou ruim.

A criança que perde a inocência.
O adolescente que descobre um coração partido.
Um adulto que corrói o tempo
e desmembra os romances dos anos 2000
em um terror da década de 90 —
indecente,
cru,
feio
e criativo.

O fim nem sempre é surpreendente,
bonito
ou sequer
previsível.

O fim também não é uma queda.

Inevitavelmente,
ele é um novo começo.

Cíclico.



quarta-feira, 15 de abril de 2026

Rachaduras




Resquícios
restaurados,
lapidados,
meses lustrados.
Olhando de perto, as vejo:
rachaduras.
E quanto mais observo,
e quanto mais
o tempo passa,
descubro outras.
Detalhes.
Às vezes, superficiais,
quase invisíveis.
Outras
trincos intrínsecos,
profundos.
E, se tocar, é nítido.
Me apresento ao mundo assim.
Desnuda de perfeição, não a cobiço,
e ouso dizer:
arte abstrata.
Ninguém precisa entender.
Eu sei o quanto doeu,
eu sei o peso,
eu sei a profundidade
O preço
Os calos nos meus dedos denunciam os dias lapidados.
Não espero caber no bolso ou sonhos de ninguém.
Incomprável.
Não tenho o menor interesse em agradar a todas as retinas que me observam.
Sei também que
nem todos os dias têm sol.
Interessa-me quem fica
quando não há plateia,
quando os dias são nublados
ou quando eu só quero me perder
na minha bagunça.
Que veja,
nisso uso o pronome possessivo: meu.
E de lá eu gosto, existe um certo tipo de conforto:
Eu permaneço.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

É só três letras



 



Não

eu não quero mais saber
quantos dias faltam para o inverno

Sequer quero passar os dias
esperando pelo outono

O que eu quero mesmo
é transbordar do que eu sou

Expandir
Descobrir

E desdobrar o tempo
para além do relógio
que carrego no pulso

Quero amanhecer com o sol

E descobrir os tons que desenha o céu

Não

Eu não quero mais ter que me preocupar
se meus passos são rápidos
ou lentos demais

Tenho compasso,
e o que for pra ser
terá ritmo

Lado a lado

Não

Eu não quero ter que dormir cedo
e esconder meus sonhos
em uma gaveta ao lado da cama
e aceitar
que é só o corpo que descansa.

Não,

eu não vou escrever meus sonhos em um testamento:
inapagável, intocável e imutável

Veja,

não sou a mesma Mayara
da semana passada

Deixe o livro aberto

Não ouse me podar

e dizer qual sonho
cabe dentro do meu travesseiro.

Não, eu não quero ter que prestar sempre a mesma queixa

Como poderia?

Se o tempo corre

e na minha mochila
tem tanta coisa minha

Não, eu quero nenhum pesar
por minhas cicatrizes,
por minhas dores
e meus traumas

Nada disso

Deixa aqui comigo,
é meu,
tem valor

e quero ouvir com atenção
o recado da vez

Não, eu não quero essa cara séria todos os dias

E o tédio de sustentar
ser a adulta da vez
7x na semana
e 12 horas ao dia.

Então me deixe aqui

correndo descalça e despretensiosa,
sem medo do tempo,
ou das marcas que vão se formar no meu rosto

Deixe que seja
Deixe que venha

Deixa que eu tempo contorne

E esqueça a ausência de esperar

porque ela é a coisa mais bonita que eu já vi,

Você mesma; minha criança.

 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Nuvens


E se eu te desenho assim
nas mesmas nuances das nuvens

Te admiro
porque tua forma é modular

Tu se reinventa

Às vezes parece tão abstrato
e eu fico aqui,
te olhando por horas,
pensando
com qual forma tu se parece

E se não parecer?
E se não for?

Reconheço tua beleza
Tuas fases

E hoje te permito discorrer
por esse olhar
que te abraça
te acolhe
e diz:

Só é

Amanhã o dia nasce
e te contorno
sem rótulos

Não ser para o outro
Ser para nós
Ser eu

domingo, 30 de novembro de 2025

Jazz

 


Cadência.

Menina,
Seu ritmo é tão Jazz.
Te ouço e é calma.
O que corre são as horas.

Compassado:
Teus lábios,
Suas mãos —
Mas são teus olhos
Que me devoram primeiro.

Entalhado,
Não sou mais turista
Em tuas curvas.

Um esboço de ti em tela,
Conheço seu corpo em arte,
Cada tatuagem.

Poderia dizer
Que tuas marcas formam constelações:
Gêmeos
E Câncer.

Gosto do seu tom:
De dia com o mundo,
A noite comigo.

Âmago.

Gosto do sabor
Do seu tabaco com rosé,
Do tom vermelho
Que só os teus cabelos tem.

E por falar em tom,
Gosto do som
que existe
Quando tem eu e você.

Mas o que eu amo mesmo
É desse lugar
Que coexistimos
E que podemos nomear de
Paz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Extremidades

 


Te enxergo nas extremidades.
Te vejo sombra.

Eu — que conheci suas cicatrizes
e provei seu suor,
que conheci suas curvas
e te vi mar:
mergulhada em águas salgadas.

Você que me provou inteira,
hoje me vê nas extremidades também.

E pensar que um dia falamos:
''que sorte a nossa,
nos encontrarmos no meio de tanta gente.''

E foi.
Só deixou de ser.
Seu tempo,
o meu.

Mesmo que breve, existiu, viu?
Existe peso e eu o reconheço,
mas hoje carrego somente
um retrato meio apagado.

Acho que não tenho uma memória
tão boa quanto achava que tinha.

Dois perambulantes
em bilhões.

Não reconheço seus olhos.

Por ruas,
vamos nos esbarrar
e, por fim,
completamente desconhecidos.

Que loucura, né?

Nenhum panfleto de perdido
seria capaz de encontrar,
incapazes de desenhar nossos traços,
compilados tão cuidadosamente
por seus dedos
e os meus.

Tuas mãos em meu rosto.
Meus dedos contornando seus lábios.
Beijando seus olhos.

Vamos atravessar
uma década
ou duas.

Algum dia,
no almoço de domingo:

— Mayara.

E você se lembrará.

Irei embora
tão rápido
quanto apareci.

Não te conheço.
Você não me conhece.

Nos desfragmentamos.

Para ti
e para mim
não existe lamento.

Molhei os pés,
você molhou os seus.

Eu sempre quis mergulhar.
Me descobri mar
em sua escassez.

O pouco de ti,
conheci
desconhecendo.

Em suas ruas,
descobri
meu próprio lar.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ímpar

 



Atravesso as incertezas
Ímpar.
Eu, que sempre preferi números pares,
aprendi a apreciar o singular.

Sem plural, não existe “EUS”,
e EU é tão bonito de pronunciar.

Mergulho no ímpar —
o ímpar de um sorriso,
de um café pela manhã,
o ímpar daquele filme,
de um poema de Kundera,
o ímpar de ser e ter muito.

Carrego essa sacola de unidades, singulares,
reconheço a paz de não saber,
de me permitir percorrer essas ruas,
atravessar esquinas
e deslizar em outras curvas.

De observar o chão que piso
e ter clareza em cada passo que dou,
do poder da escolha
e da beleza que — eu já disse, né? — ímpar.

Não sou mais a que espera ser escolhida.
Dois ou mais sorrisos me brilham a retina,
retribuo e sigo.

Nem tudo vem para ficar,
e também existe valor na chuva que é passageira
e no vento repentino
que bagunça meus cabelos.

Me permito sentir,
me permito ser,
me permito dar e receber.

Partilho do meu banquete com poucos,
e entendo que sim,
a vida corre,
o rio percorre a margem,
e os pássaros voam para longe do ninho.

Nunca foi tão bom ser ímpar
e carregar tantas incertezas,
porque nesse cruzamento entre uma esquina e outra,
tudo pode acontecer.

Então,
por que
não?

Um dia, quem sabe,
encontro outro ímpar
aonde 1 + 1
ainda será igual a 1.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Último Quarto




Depois de todas as luzes que eu venho apagando

Andando cômodo por cômodo,
Organizando e fechando portas.

Chego neste quarto,
Onde você está sentada na cama.
Eu o evitei por semanas e meses,
Porque te encontrar ali também significaria
Tocar uma última vez na ferida.

Sento aqui na ponta
E te olho nos olhos.
E aí, vamos conversar?

Olha, naquele domingo
Quando eu saí por aquela porta,
Confesso,
Prometi me esquecer de cada detalhe seu
Que estava impregnado na minha pele.

E foi exatamente isso que eu fiz —
Lembrar de ti com um borrão.

Censurada,
Te censurei na memória.
E o primeiro cômodo que entrei foi no meu quarto,
E lá, cuidei das minhas feridas,
Cada uma delas
Que tu fez questão de reforçar na minha pele naquela tarde.

Eu era a prioridade —
Me suturar.
Te vomitei,
E agora, depois de toda ânsia e enjoo,
Aqui, sentada frente a tu,
Ouça:

Somos todos um pouco quebrados, não é mesmo?
E está tudo bem,
Porque no fim,
O que nos torna únicos
São as nossas imperfeições.

Lembra daquela frase
Que partilhei contigo pós-terapia:
“De perto todo mundo é louco e feio.”

E por falar em louco,
Que loucura compilar na mesma pessoa
A minha ferida mais profunda
E ter que admitir que:
Te amar também foi uma forma de me amar.

E de tudo que eu já deixei ir —
Partes minhas que viveram isso,
Partes tuas, nossas.

Hoje eu deixo ir
A parte mais bonita do que tivemos,
Deixo ir
Para que eu possa ir também.

Então,

Obrigada pela estrela,
Pelo Natal.
Obrigada por compartilhar comigo
Suas paixões, seus medos, dores e sonhos.
Obrigada pelo acolhimento
E por me ajudar a ver
O quão bonitas são minhas raízes.

Obrigada por todos os pratos que me apresentou,
E por ter me dado a oportunidade
De lhe apresentar os meus também.
Por todo cuidado que teve com os meus.
Obrigada por todos os sorrisos,
Danças estranhas e abraços.

Obrigada.

P.S.: Suspeito que não era o córrego,
Nem as árvores —
Acho que era o som da nossa risada.

Agora preciso ir,
Mas antes de fechar a porta,
Te deixo um sorriso
E, como tu dizia:
Que Deus te acompanhe.

B-day.


segunda-feira, 13 de outubro de 2025




Você que me apareceu
assim tão repentina,

me encontrou no farol vermelho,
no meio de uma chuva.

E quando te vi do meu lado,
recuei —
pensei em mil caminhos diferentes
para desviar da sua rota.

— Não tem pressa,
podemos sentar e esperar o sinal verde.

Eu lhe sorri acanhada,
e só depois de um tempo
me permiti sentar aqui com você.

Em silêncio...

E nesse silêncio,
seu cuidado,
seu respeito com minhas cicatrizes,
sua admiração por minha sensibilidade,
e sua paciência com meu tempo
curaram muito em mim.

Mutuamente,
lhe deixo um tanto também.

Que o amor lhe encontre e transborde —
você merece tudo de mais lindo
que possa existir na vida.

E apesar de eu ainda estar aqui,
sentada, esperando o farol verde,

seja tu, agora,
uma grande amiga.

É bom dividir o guarda-chuva com você.

Esse texto não poderia ter outro nome
senão o seu.

Obrigada por tanto, meu bem.


''Você é muito linda e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé''

domingo, 12 de outubro de 2025

Caixa aberta, ou carta.

 



Olho para ti,
essa parte quase desprendida de toda composição.

Tu, que eu coloquei no bolso
para não deixar à mostra,
não por omissão,
mas porque eu precisava das minhas mãos livres
para abraçar e cuidar
do que estava exposto e sangrando.

Eu sempre soube que estava ali,
e que um dia eu teria que te encarar,
te diluir,
e me alimentar do que em ti é meu.

Não existe linearidade em integrar.

Hoje resolvi te olhar.
Em um domingo de sol,
te tiro do bolso.

Me conta,
aonde ainda dói?

Mas antes de começar,
te abraço.

Eu sei,
é preciso ter coragem
para servir à mesa
um cardápio de vulnerabilidades.

Mas olha,

Você não errou em querer o que quis.
Você não perdeu seu tempo.
Você não foi ingênua.

Não,
você não foi errada
em querer ser amada em voz alta.

E não,
você não pediu demais.

Você não foi menos forte
por não conseguir impor limites.

Não,
não tem nada de errado
com a sua sensibilidade
e com a sua forma de amar.

Que lhe sirva de lição:
o corpo sente antes da mente.

Você não errou em fazer planos,
em ser vulnerável.

Não,
não foi um erro
querer tanto aquele almoço em família,
apresentar sua mãe.

E está tudo bem,
você não precisa se culpar
por não ter se protegido
e ter perdido um pouco da voz.

Eu estou aqui por você.

Eu te enxergo,
eu te sinto,
e sua dor também é a minha,
e o que te sangra
também me sangra.

E depois de te tirar do bolso,
eu sei exatamente
aonde ainda dói em você.

E está tudo bem tropeçar às vezes,
os machucados nos ensinam novos caminhos.

Cuido de ti
e te permito descansar no meu abraço.

Vamos com cuidado
e no seu tempo,
porque um dia —
eu te prometo —
essa ferida será só uma cicatriz.

E quando tu a olhar,
será somente uma lembrança
do quão forte
e linda
você é.

E, aliás,
se é disso que você precisa,
eu te perdoou.

Assim como perdoei
todas as outras versões nossas
que passaram por aqui,
que estão diluídas
e integradas.


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Metamorfose


Me encontro com ela, às vezes.
Não mais com cores,
diria que em tela: Arte abstrata,

Fragmentada.

Seus olhos,
sua boca,
seu cabelo,
o contorno de sua forma —
não consigo mais compilar
em uma matéria inteira.

Diriam também:
Um filme mudo?
Os créditos iniciais anunciam:
Dirigido e escrito por Mayara.

E em tudo que se perdeu, confesso:
não me recordo mais
do tom da sua voz
ou do som da risada.

Uma metamorfose cognitiva.

Observo a chegada repentina com cuidado,
e reconheço as tantas partes dela
que sempre foram minhas.
Pouco ali lhe pertencia.

Às vezes, ela me encontra
quando tomo um café pela manhã
ou quando a minha rota
esbarra em sua rua.
Quando seu prato favorito
aparece em meu cardápio,

observo e às vezes sinto o corte,
uma linha fina vertical
que, quando toca,
dói sutil.

Às vezes a vejo vir, de longe,
e pergunto:
De novo aqui?

Projetado para todos verem:
o amor que eu sempre quis ter.
Assumo, em bom tom,
sou a única responsável
por esse roteiro fracassado.

Um soco no estômago
seria menos dolorido
e bem-vindo.

Te entrego os créditos,
te coloco em exposição,
nos recolho e integro.

Isto também é meu:
meu próprio amor
fundido à minha dor.

Emaranhados.
Não sangra,
não é mais abstrato.

Hoje, concreto
e integrado.


domingo, 21 de setembro de 2025

Cabide


 Inércia

O abismo entre muito e nada.
Duas linhas verticais que se encontram
Um nó que desata
O universo em movimento

Desapego

Ontem é passado
e quando eu terminar esse texto voilà: Passado

Cíclico, a primavera vem.
“um momento, um encontro” –
A beleza e singularidade do presente,
nada nunca será o mesmo,

nem aquele prato que tu preparou,
nem você,
nem eu,
tudo em movimento.

Aquele casaco, um dia, foi meu favorito – Hoje, deixo ir.
Tenho novos casacos para descobrir.

Concordo com Belchior: o passado é uma roupa que não nos serve mais.

E como posso me vestir de tu?
Se os teus tecidos não me cobrem?

Não posso e nem vou
não me diminuir
para caber em tuas calças, menina.

Não posso e nem vou,
calçar teus sapatos.

Me contento com o ser,
e com tudo que tenho.

“Perder-se também é caminho.”

O peso esmagador de tanto
e agora o pulsar de nada.

Não, não estou escondendo
as roupas velhas em caixas,
esperando que algum dia elas me sirvam.

Não, não mesmo!

Agradeço o tempo de acolhimento
mas confesso;

Me desfiz,
e agora nua,
vejo mil e uma possibilidades.

Uma blusa?
Uma calça?
Por que não um shorts?
Pode ser aquele suéter também.

Tenho tempo,
tenho paciência
e veja bem:

agora,
quando não me servir
eu não vou insistir,
eu não vou comprar possibilidades
ou potencial.

Compro apenas
o que me veste bem
e inteira.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Portal


Vai

Vai em paz, que as expectativas desse amor já não nos cabem mais.

Vai,
a porta sempre esteve aberta
e você sempre esteve na janela.

Vai,
encontra teu caminho, tua verdade,
cultive sua terra e cure seus espinhos, desejo a ti um mar de lírios.

Repito mil vezes o verso de Caio.
Não,
não aquela de 50 anos.
Mas aquele que hoje nos cabe:
“nem você, nem eu somos descartáveis
e amanhã tem sol.”

Então vai.
Porque semana que vem eu não sei,
mês que vem não planejo
tudo que eu sei é que ano que vem é 2026.

Então vai.
Carregue seu peso, ele é teu e de mais ninguém.
Não esquece,
sua sombra um dia também fará parte do seu descanso.

Então vai.
Olhe-se com amor e cuidado
porque quando tu olha de perto, reconhece.
E quando reconhecer,
terá uma lanterna no bolso.

Então vai.
A vida nos chama,
tem muito pra viver.
Cazuza tinha razão
quando disse que o tempo não para.

Então vai.
Que se não foste tu meu grande amor
nem eu o teu,
que fique de aprendizado o que nos feriu
— e os bons momentos, de régua.

Então vai.
E jamais aceite menos amor,
menos cuidado,
menos parceria,
menos risada,
menos.

Tu merece, e eu também.
E, menina,
os teus cacos que me feriram também me ensinaram:
nem tudo é como a gente quer,
mas se você se tem, então já tem muito.

Um beijo.


P.S. the sun will still shine when we leave.


domingo, 7 de setembro de 2025

3.0.4

 



304 dias
3 estações
Te vesti com tantas cores e flores.

E como diz Martha:
Eu amei a tua estreia em minha vida.

Amei as horas no telefone,
amei saber de ti.
Antes do corpo, amei teu coração.
Amei você inteira.
Amei minha projeção.
“Amei meu próprio amor”.

Admirei tua verdade,
tua força e audácia,
tua vulnerabilidade.
Te admirei.

Poderia ter sido a minha hora,
Poderia ter sido a tua vez.
Poderia.

Mas não basta só um querer.

As cores e flores abrem espaço —
Sem tom e mortas em um canto da mesa.

As luzes se acendem bruscamente,
e enxergo os fragmentos.

Ali tu nunca esteve inteira.

Quem
é
você?

6 horas — 360 minutos.

E agora,
silêncio.

Fim de um curta.
Não tem aplausos,
não tem plateia.

Liniker diria:
Um amor acidente.

Mas dessa vez
ninguém para pra ver.


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Isso também passará.

 



Verão

Exposta no calor intenso do sol,
senti a minha pele queimar.
Ainda agora, olhando para as marcas,
sinto apreço e respeito.
São bonitas, sabe?

Outono
Recolhi as folhas secas do chão.
Reconheci a inteireza de um espaço
que é meu,
sempre foi,
tomo posse.

"Observo a mim mesmo em silêncio
Porque é nele onde mais e melhor se diz
"

Aprendi a olhar com profundidade
e, depois de 

observar por horas,
não foi só meu cabelo que cresceu.

O meu amor,
acolhimento
e paz
puderam transbordar
para além dos galhos quebrados
e folhas secas.

Reconheci meus olhos escuros
e o contorno dos meus lábios.
Essa mulher sou eu,
inteira.

Inverno
Quando o vento intrínseco chegou
e a tempestade veio sem avisar,
eu entendi o porquê do verão e suas marcas,
do outono e sua inteireza.

Aqui, no meio da chuva,
recolho meus cacos.
Não mais com desespero
ou ânsia para encontrar o sol.

Observar com profundidade
me ensinou a encontrar o caminho de volta para casa
e, independente da neblina,
tenho pés firmes
e muito axé.

Observo a bagunça
e me permito chorar pelo que foi dilacerado.
E se tem tempestade: Odoyá.

Ressignificar os destroços.
Leve o tempo que for.

Com calma e gentileza,
pego minha mão

e me entrego amor,
carinho
e o cuidado que mereço.

Me respeito
e respeito minha entrega,
minha dor e meu tempo,
minha história.

Me permito descansar
e deixar ir as expectativas
de um amor que não foi,
dos planos, das viagens,
do desejo de dividir um lar tranquilo.

Deixo ir,
sem o peso do rancor
ou do que poderia ter sido.

Primavera
Cultivo minha terra
para que novas flores
possam florescer.

"Quem falou que eu ando só?
Nessa terra, nesse chão de meu Deus.
Sou uma, mas não sou só."

domingo, 31 de agosto de 2025

Caixas.

 


Olho para o meu quarto bagunçado.
Caixas abertas, outras empoeiradas num canto.
As observo, esperando uma súbita coragem chegar,
pra eu conseguir olhar de perto.
Deixar para trás o que já não me serve mais.

Me compadeço pelo que em mim sangra
e, paciente, vou tentando entender
por qual canto do quarto começo a limpeza.


Por aquela caixa que separa o concreto da projeção?
Ou por aquela outra que guarda partes
do que perdi no meio do caminho?
Um pouco de mim,
um pouco dos meus limites,
um pouco da minha voz.

E no meio desse quarto existe uma nova caixa, entreaberta: Trauma.
Eu sei o que dentro dela existe, sei da onde veio,
mas meus pés, frágeis, agora,
não conseguem caminhar até lá.

Então eu sento,
e vou arrumando o que está ao meu alcance, aos poucos.
Item a item,
olho com carinho, olho com atenção,
e me pergunto:
Isso é meu?
E se não é, por que veio parar aqui?
O que tu quer me ensinar?
E depois, descarto.

Tenho uma mochila
e um lembrete que diz:
Leve apenas o essencial.
A estrada é longa.
Não leve o que não é seu.

Avisem aos cachorros da rua
que a minha ferida crua
é melhor não lamber.

Fechado, por tempo indeterminado

Cuido da minha dor, cuido da minha bagagem para não dividi-la com ninguém, é a minha bagunça, é o meu quarto, minha responsabilidade.

Em Luto.

Luto por tudo que eu queria ter vivido.
Luto por tudo que eu achei que tu era.
Luto pelo meu tempo.
Em luto.

No meio dessa bagunça, dessas caixas, dessa ferida,
existe também a beleza de um:
“Conta comigo.”
“Se precisar se distrair, ir almoçar, eu tô aqui.”
“Estou aqui por você.”
“Você é uma mulher linda e forte.”
“Me ligue a hora que precisar.”

Existe o amor de mãe,
o acolhimento dos meus Guias:
Nada acontece por acaso.

Existe a beleza de me olhar
e saber que entreguei a mim o amor mais bonito
que ninguém jamais me deu:
Me escolher e me respeitar.

Desejo a ti coisas boas,
tanto quanto desejo a mim.
Desejo a ti cura,
desejo a ti a sinceridade de olhar pra si
e se aceitar em completude.
Desejo a ti um amor completo:
o amor por ti mesma.

Um dia o sol há de iluminar esse quarto,
e não haverá mais caixas espalhadas ou entreabertas.
E eu irei renomear –
AQUELA CAIXA.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Des(construção)

 




Sou tudo que um dia esteve em pedaços

Sou formas novas que o tempo esculpiu.
E o meu amor são flores que insistem em nascer,
como aquelas que brotam
nas brechas do concreto da cidade.

Confesso:
precisei reaprender a ler o amor —
eu, que por tantos anos
o vi como um prêmio a se ganhar
após uma luta árdua.

Em um dia de outono,
o vi chegar tênue e vagaroso.
Duvidei da sua calmaria.
Me armei
e esperei por uma guerra
que, a princípio, não veio.

E quando veio,
precisei virar a página
e reescrever.

Ressignificar, como esse texto.

Aprender a sentar na grama
e contemplar a paisagem.
Aprender a sentir paz.
Aprender a permitir
que também cuidem de mim.

Aprender que o amor não tem urgência.
Aprender que o amor é soma.
Que é espaço seguro onde seus sentimentos são respeitados,
e nenhuma dor é diminuída.
Aprender que o amor
não te coloca em posição de dúvida.

Aprender a ser vulnerável
e sentir o que tiver que sentir,
sem culpa.

Aprender que a minha força
também é a minha sensibilidade.
Aprender a ser inteira
e não me quebrar para caber.
Aprender a ouvir.
Aprender a me posicionar com delicadeza.

Aprender que o amor
é muito mais que dias de sol,
euforia e chocolate quente.
O amor também é sobre dias nublados.
Sobre escutar, perdoar e pedir perdão.
Sobre acolher.
Sobre ser, todos os dias, uma escolha mútua.

O amor é disposição,
respeito
e parceria.
O amor é a rotina de um domingo.
É um abraço apertado no meio do dia.
É a troca de sorrisos
e a inteireza de um café da manhã na cama.
É sobre dividir o seu sorvete favorito.

É sobre zelar pelo sentimento do outro.

O amor mora nos detalhes —
antes de ser do próximo
tem que ser nosso.

Então,
depois de horas pensando em ser uma tela em branco,
eu não desejo apagar
nenhuma parte do que fui,
nenhuma dor ou decepção que me atravessou.
Nada do que sou hoje,
e do que espero ser amanhã.

Porque em mim
sempre existirá a capacidade de amar.
E, a cada tropeço,
me levantar —
e entregar o meu amor mais completo.
Tudo que eu oferecer ao outro
continua sendo meu.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Crônico


Discorro por leitos: remédios, doses amargas, direto na veia.
Em coma, dizia o prontuário.
Quarta-feira, meia-noite, pelos corredores anunciavam: a garota acordou!
Acordada. A dor foi ácida, quase letal. Abrir os olhos nunca foi tão pesado.
O processo é lento; o que sangra se dissolve no tempo e toma uma nova forma. O corte vertical, dilacerado, assume a cura: uma nova cicatriz, abstrata, minha.
Olham e dizem: crônico, um tratamento para o resto da vida.

E quem diria, né?
Eu, que cheguei aos pedaços, desacordada, desenganada por tantos...
Aos poucos, descamei a Mayara, recordações minimalistas e depois brutais.
E quando senti minhas pernas, me levantei, pude sorrir, tênue, e me admirar. Observo o tal corte vertical. É bonito de olhar — e, como quem olha para o horizonte ao chegar no topo, entendo o caminho, os tropeços, o cansaço e o peso...
Vale a vista. O silêncio é precioso, e o olhar descansa com mais calma.
E ninguém além de mim poderá assumir a narrativa dessa história, dizer o que doeu ou deixou de doer.

Hoje caminho com minhas próprias pernas,
me visto com meias amarelas e blusa vermelha — e quem vai dizer que é demodé? Pouco me importa.

Posso cozinhar aquele prato e falar mal daquele porta-retrato.
Posso errar o caminho, descobrir novos lugares e dizer: vai ficar tudo bem — porque sempre fica.
Posso recusar aquele convite e passar uma sexta-feira inteira em casa — dizer que odeio aquele filme que a galera inteira ama.
Posso sorrir alto, contar aquela piada sem graça,
ler aquele livro do Bukowski e depois ler Brené —
foda-se a conjuntura da obra, faz sentido aqui.

Então, eu aceito o diagnóstico.
Eu aceito a receita.
Eu aceito o crônico.
Eu aceito as doses e o remédio amargo que, às vezes, terei que tomar.

Hoje reconheço os sintomas e sei ponderar bem qual será a dose,
aonde dói e por que está doendo.

E tudo bem se vez ou outra doer em um lugar novo, observar é o primeiro passo para a cura.

Não existe riqueza maior na vida do que a paz da completude
e, no meio de uma tempestade, ainda ser lar.

A certeza da incerteza:
que viver seja essa aventura da descoberta, da impermanência,
e, mesmo quando não for bonito, posso aceitar o encaixe da peça,
porque ela é necessária para o contexto de toda a obra.

Recovery.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

10.592

 



Tenho aproximadamente 10.592 dias de vida.
Ainda assim parece tão pouco, é pouco.
Ainda assim não sei falar da ambiguidade do tempo.
E será que preciso mesmo falar ou entender?
Tu se perdia no abstrato das nuvens
Eu me perco no abstrato da paisagem pela janela do trem
Meu sorvete favorito ainda é o céu azul – não sei como vocês chamam por aí, eu sempre chamei assim, gostava da entonação e da cor.
Era bom chegar na vendinha do Jaime e pedir: Eu quero um céu azul.
Parecia que eu estava pedindo um pedaço do paraíso e podia comprá-lo quase toda tarde por 30 centavos.
Ainda gosto da entonação e da cor, mas não o acho em qualquer lugar e muito menos por 30 centavos.

Tu, que gostava de subir na laje e olhar para as árvores no horizonte, pensava: Acho que o mundo termina ali.
Diriam: Uma menina terraplanista!
Bom, não somos terraplanistas mas eu gosto de olhar para o horizonte e pensar que existem tantas coisas por aí, e não é porque não enxergamos que elas não estão lá, sabe?

Eu que sempre acordei pontualmente às 6h da manhã e sentia um embrulho no estômago
quando ouvia o portão fechar: Era meu pai saindo para trabalhar.
Chorei incontáveis vezes com a ideia de que ele pudesse não voltar algum dia.

Perdas, a vida é cheia delas.
Procuro guardar cada som de gargalhada,
ou expressão rotineira,
e se for eu quem partirá primeiro?

Pontualmente acordo às 6h,
''ser alguém na vida'' – chegou a minha vez.
Eu que sempre esperei meus irmãos dormirem, para aí sim, dormir.
Confesso: Às vezes peguei no sono, mas sempre com uma mão para fora do beliche.
Como se eu estar acordada ou com minhas mãos ali, estendidas, fossem protegê-los.

Hoje me abraço quando durmo só,
e quando acompanhada,
a ponta do pé, ao menos ela tem que tocar.
Ainda é a minha forma de dizer: Estou aqui.

Eu que incontáveis aniversários
me tranquei no banheiro com um estojo de lápis de cor, e escrevi cartas, presente para os meus pais.
Era tudo que eu tinha para oferecer: Meu amor compilado em palavras

Hoje escrevo,
não mais no banheiro escondida,
mas ainda compilo todos os sentimentos em palavras,
e me entrego de bandeja, assim,
sem pudor ou medo.

Amo nas palavras.
Ás vezes profundas, às vezes rasas,
mas amo.
E sempre amei:
A paisagem,
o sorvete céu azul,
o tempo,
minha família,
amo tudo que somos, e que transborda 10.592 dias depois.