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segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Metamorfose


Me encontro com ela, às vezes.
Não mais com cores,
diria que em tela: Arte abstrata,

Fragmentada.

Seus olhos,
sua boca,
seu cabelo,
o contorno de sua forma —
não consigo mais compilar
em uma matéria inteira.

Diriam também:
Um filme mudo?
Os créditos iniciais anunciam:
Dirigido e escrito por Mayara.

E em tudo que se perdeu, confesso:
não me recordo mais
do tom da sua voz
ou do som da risada.

Uma metamorfose cognitiva.

Observo a chegada repentina com cuidado,
e reconheço as tantas partes dela
que sempre foram minhas.
Pouco ali lhe pertencia.

Às vezes, ela me encontra
quando tomo um café pela manhã
ou quando a minha rota
esbarra em sua rua.
Quando seu prato favorito
aparece em meu cardápio,

observo e às vezes sinto o corte,
uma linha fina vertical
que, quando toca,
dói sutil.

Às vezes a vejo vir, de longe,
e pergunto:
De novo aqui?

Projetado para todos verem:
o amor que eu sempre quis ter.
Assumo, em bom tom,
sou a única responsável
por esse roteiro fracassado.

Um soco no estômago
seria menos dolorido
e bem-vindo.

Te entrego os créditos,
te coloco em exposição,
nos recolho e integro.

Isto também é meu:
meu próprio amor
fundido à minha dor.

Emaranhados.
Não sangra,
não é mais abstrato.

Hoje, concreto
e integrado.


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