Tenho aproximadamente 10.592 dias de vida.
Ainda assim parece tão pouco, é pouco.
Ainda assim não sei falar da ambiguidade do tempo.
E será que preciso mesmo falar ou entender?
Tu se perdia no abstrato das nuvens
Eu me perco no abstrato da paisagem pela janela do trem
Meu sorvete favorito ainda é o céu azul – não sei como vocês chamam por aí, eu sempre chamei assim, gostava da entonação e da cor.
Era bom chegar na vendinha do Jaime e pedir: Eu quero um céu azul.
Parecia que eu estava pedindo um pedaço do paraíso e podia comprá-lo quase toda tarde por 30 centavos.
Ainda gosto da entonação e da cor, mas não o acho em qualquer lugar e muito menos por 30 centavos.
Tu, que gostava de subir na laje e olhar para as árvores no horizonte, pensava: Acho que o mundo termina ali.
Diriam: Uma menina terraplanista!
Bom, não somos terraplanistas mas eu gosto de olhar para o horizonte e pensar que existem tantas coisas por aí, e não é porque não enxergamos que elas não estão lá, sabe?
Eu que sempre acordei pontualmente às 6h da manhã e sentia um embrulho no estômago
quando ouvia o portão fechar: Era meu pai saindo para trabalhar.
Chorei incontáveis vezes com a ideia de que ele pudesse não voltar algum dia.
Perdas, a vida é cheia delas.
Procuro guardar cada som de gargalhada,
ou expressão rotineira,
e se for eu quem partirá primeiro?
Pontualmente acordo às 6h,
''ser alguém na vida'' – chegou a minha vez.
Eu que sempre esperei meus irmãos dormirem, para aí sim, dormir.
Confesso: Às vezes peguei no sono, mas sempre com uma mão para fora do beliche.
Como se eu estar acordada ou com minhas mãos ali, estendidas, fossem protegê-los.
Hoje me abraço quando durmo só,
e quando acompanhada,
a ponta do pé, ao menos ela tem que tocar.
Ainda é a minha forma de dizer: Estou aqui.
Eu que incontáveis aniversários
me tranquei no banheiro com um estojo de lápis de cor, e escrevi cartas, presente para os meus pais.
Era tudo que eu tinha para oferecer: Meu amor compilado em palavras
Hoje escrevo,
não mais no banheiro escondida,
mas ainda compilo todos os sentimentos em palavras,
e me entrego de bandeja, assim,
sem pudor ou medo.
Amo nas palavras.
Ás vezes profundas, às vezes rasas,
mas amo.
E sempre amei:
A paisagem,
o sorvete céu azul,
o tempo,
minha família,
amo tudo que somos, e que transborda 10.592 dias depois.
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