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domingo, 12 de outubro de 2025

Caixa aberta, ou carta.

 



Olho para ti,
essa parte quase desprendida de toda composição.

Tu, que eu coloquei no bolso
para não deixar à mostra,
não por omissão,
mas porque eu precisava das minhas mãos livres
para abraçar e cuidar
do que estava exposto e sangrando.

Eu sempre soube que estava ali,
e que um dia eu teria que te encarar,
te diluir,
e me alimentar do que em ti é meu.

Não existe linearidade em integrar.

Hoje resolvi te olhar.
Em um domingo de sol,
te tiro do bolso.

Me conta,
aonde ainda dói?

Mas antes de começar,
te abraço.

Eu sei,
é preciso ter coragem
para servir à mesa
um cardápio de vulnerabilidades.

Mas olha,

Você não errou em querer o que quis.
Você não perdeu seu tempo.
Você não foi ingênua.

Não,
você não foi errada
em querer ser amada em voz alta.

E não,
você não pediu demais.

Você não foi menos forte
por não conseguir impor limites.

Não,
não tem nada de errado
com a sua sensibilidade
e com a sua forma de amar.

Que lhe sirva de lição:
o corpo sente antes da mente.

Você não errou em fazer planos,
em ser vulnerável.

Não,
não foi um erro
querer tanto aquele almoço em família,
apresentar sua mãe.

E está tudo bem,
você não precisa se culpar
por não ter se protegido
e ter perdido um pouco da voz.

Eu estou aqui por você.

Eu te enxergo,
eu te sinto,
e sua dor também é a minha,
e o que te sangra
também me sangra.

E depois de te tirar do bolso,
eu sei exatamente
aonde ainda dói em você.

E está tudo bem tropeçar às vezes,
os machucados nos ensinam novos caminhos.

Cuido de ti
e te permito descansar no meu abraço.

Vamos com cuidado
e no seu tempo,
porque um dia —
eu te prometo —
essa ferida será só uma cicatriz.

E quando tu a olhar,
será somente uma lembrança
do quão forte
e linda
você é.

E, aliás,
se é disso que você precisa,
eu te perdoou.

Assim como perdoei
todas as outras versões nossas
que passaram por aqui,
que estão diluídas
e integradas.


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