Páginas

domingo, 31 de agosto de 2025

Caixas.

 


Olho para o meu quarto bagunçado.
Caixas abertas, outras empoeiradas num canto.
As observo, esperando uma súbita coragem chegar,
pra eu conseguir olhar de perto.
Deixar para trás o que já não me serve mais.

Me compadeço pelo que em mim sangra
e, paciente, vou tentando entender
por qual canto do quarto começo a limpeza.


Por aquela caixa que separa o concreto da projeção?
Ou por aquela outra que guarda partes
do que perdi no meio do caminho?
Um pouco de mim,
um pouco dos meus limites,
um pouco da minha voz.

E no meio desse quarto existe uma nova caixa, entreaberta: Trauma.
Eu sei o que dentro dela existe, sei da onde veio,
mas meus pés, frágeis, agora,
não conseguem caminhar até lá.

Então eu sento,
e vou arrumando o que está ao meu alcance, aos poucos.
Item a item,
olho com carinho, olho com atenção,
e me pergunto:
Isso é meu?
E se não é, por que veio parar aqui?
O que tu quer me ensinar?
E depois, descarto.

Tenho uma mochila
e um lembrete que diz:
Leve apenas o essencial.
A estrada é longa.
Não leve o que não é seu.

Avisem aos cachorros da rua
que a minha ferida crua
é melhor não lamber.

Fechado, por tempo indeterminado

Cuido da minha dor, cuido da minha bagagem para não dividi-la com ninguém, é a minha bagunça, é o meu quarto, minha responsabilidade.

Em Luto.

Luto por tudo que eu queria ter vivido.
Luto por tudo que eu achei que tu era.
Luto pelo meu tempo.
Em luto.

No meio dessa bagunça, dessas caixas, dessa ferida,
existe também a beleza de um:
“Conta comigo.”
“Se precisar se distrair, ir almoçar, eu tô aqui.”
“Estou aqui por você.”
“Você é uma mulher linda e forte.”
“Me ligue a hora que precisar.”

Existe o amor de mãe,
o acolhimento dos meus Guias:
Nada acontece por acaso.

Existe a beleza de me olhar
e saber que entreguei a mim o amor mais bonito
que ninguém jamais me deu:
Me escolher e me respeitar.

Desejo a ti coisas boas,
tanto quanto desejo a mim.
Desejo a ti cura,
desejo a ti a sinceridade de olhar pra si
e se aceitar em completude.
Desejo a ti um amor completo:
o amor por ti mesma.

Um dia o sol há de iluminar esse quarto,
e não haverá mais caixas espalhadas ou entreabertas.
E eu irei renomear –
AQUELA CAIXA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ichi-go ichi-e