Páginas

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Extremidades

 


Te enxergo nas extremidades.
Te vejo sombra.

Eu — que conheci suas cicatrizes
e provei seu suor,
que conheci suas curvas
e te vi mar:
mergulhada em águas salgadas.

Você que me provou inteira,
hoje me vê nas extremidades também.

E pensar que um dia falamos:
''que sorte a nossa,
nos encontrarmos no meio de tanta gente.''

E foi.
Só deixou de ser.
Seu tempo,
o meu.

Mesmo que breve, existiu, viu?
Existe peso e eu o reconheço,
mas hoje carrego somente
um retrato meio apagado.

Acho que não tenho uma memória
tão boa quanto achava que tinha.

Dois perambulantes
em bilhões.

Não reconheço seus olhos.

Por ruas,
vamos nos esbarrar
e, por fim,
completamente desconhecidos.

Que loucura, né?

Nenhum panfleto de perdido
seria capaz de encontrar,
incapazes de desenhar nossos traços,
compilados tão cuidadosamente
por seus dedos
e os meus.

Tuas mãos em meu rosto.
Meus dedos contornando seus lábios.
Beijando seus olhos.

Vamos atravessar
uma década
ou duas.

Algum dia,
no almoço de domingo:

— Mayara.

E você se lembrará.

Irei embora
tão rápido
quanto apareci.

Não te conheço.
Você não me conhece.

Nos desfragmentamos.

Para ti
e para mim
não existe lamento.

Molhei os pés,
você molhou os seus.

Eu sempre quis mergulhar.
Me descobri mar
em sua escassez.

O pouco de ti,
conheci
desconhecendo.

Em suas ruas,
descobri
meu próprio lar.

domingo, 26 de outubro de 2025

Ímpar

 



Atravesso as incertezas
Ímpar.
Eu, que sempre preferi números pares,
aprendi a apreciar o singular.

Sem plural, não existe “EUS”,
e EU é tão bonito de pronunciar.

Mergulho no ímpar —
o ímpar de um sorriso,
de um café pela manhã,
o ímpar daquele filme,
de um poema de Kundera,
o ímpar de ser e ter muito.

Carrego essa sacola de unidades, singulares,
reconheço a paz de não saber,
de me permitir percorrer essas ruas,
atravessar esquinas
e deslizar em outras curvas.

De observar o chão que piso
e ter clareza em cada passo que dou,
do poder da escolha
e da beleza que — eu já disse, né? — ímpar.

Não sou mais a que espera ser escolhida.
Dois ou mais sorrisos me brilham a retina,
retribuo e sigo.

Nem tudo vem para ficar,
e também existe valor na chuva que é passageira
e no vento repentino
que bagunça meus cabelos.

Me permito sentir,
me permito ser,
me permito dar e receber.

Partilho do meu banquete com poucos,
e entendo que sim,
a vida corre,
o rio percorre a margem,
e os pássaros voam para longe do ninho.

Nunca foi tão bom ser ímpar
e carregar tantas incertezas,
porque nesse cruzamento entre uma esquina e outra,
tudo pode acontecer.

Então,
por que
não?

Um dia, quem sabe,
encontro outro ímpar
aonde 1 + 1
ainda será igual a 1.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Último Quarto




Depois de todas as luzes que eu venho apagando

Andando cômodo por cômodo,
Organizando e fechando portas.

Chego neste quarto,
Onde você está sentada na cama.
Eu o evitei por semanas e meses,
Porque te encontrar ali também significaria
Tocar uma última vez na ferida.

Sento aqui na ponta
E te olho nos olhos.
E aí, vamos conversar?

Olha, naquele domingo
Quando eu saí por aquela porta,
Confesso,
Prometi me esquecer de cada detalhe seu
Que estava impregnado na minha pele.

E foi exatamente isso que eu fiz —
Lembrar de ti com um borrão.

Censurada,
Te censurei na memória.
E o primeiro cômodo que entrei foi no meu quarto,
E lá, cuidei das minhas feridas,
Cada uma delas
Que tu fez questão de reforçar na minha pele naquela tarde.

Eu era a prioridade —
Me suturar.
Te vomitei,
E agora, depois de toda ânsia e enjoo,
Aqui, sentada frente a tu,
Ouça:

Somos todos um pouco quebrados, não é mesmo?
E está tudo bem,
Porque no fim,
O que nos torna únicos
São as nossas imperfeições.

Lembra daquela frase
Que partilhei contigo pós-terapia:
“De perto todo mundo é louco e feio.”

E por falar em louco,
Que loucura compilar na mesma pessoa
A minha ferida mais profunda
E ter que admitir que:
Te amar também foi uma forma de me amar.

E de tudo que eu já deixei ir —
Partes minhas que viveram isso,
Partes tuas, nossas.

Hoje eu deixo ir
A parte mais bonita do que tivemos,
Deixo ir
Para que eu possa ir também.

Então,

Obrigada pela estrela,
Pelo Natal.
Obrigada por compartilhar comigo
Suas paixões, seus medos, dores e sonhos.
Obrigada pelo acolhimento
E por me ajudar a ver
O quão bonitas são minhas raízes.

Obrigada por todos os pratos que me apresentou,
E por ter me dado a oportunidade
De lhe apresentar os meus também.
Por todo cuidado que teve com os meus.
Obrigada por todos os sorrisos,
Danças estranhas e abraços.

Obrigada.

P.S.: Suspeito que não era o córrego,
Nem as árvores —
Acho que era o som da nossa risada.

Agora preciso ir,
Mas antes de fechar a porta,
Te deixo um sorriso
E, como tu dizia:
Que Deus te acompanhe.

B-day.


segunda-feira, 13 de outubro de 2025




Você que me apareceu
assim tão repentina,

me encontrou no farol vermelho,
no meio de uma chuva.

E quando te vi do meu lado,
recuei —
pensei em mil caminhos diferentes
para desviar da sua rota.

— Não tem pressa,
podemos sentar e esperar o sinal verde.

Eu lhe sorri acanhada,
e só depois de um tempo
me permiti sentar aqui com você.

Em silêncio...

E nesse silêncio,
seu cuidado,
seu respeito com minhas cicatrizes,
sua admiração por minha sensibilidade,
e sua paciência com meu tempo
curaram muito em mim.

Mutuamente,
lhe deixo um tanto também.

Que o amor lhe encontre e transborde —
você merece tudo de mais lindo
que possa existir na vida.

E apesar de eu ainda estar aqui,
sentada, esperando o farol verde,

seja tu, agora,
uma grande amiga.

É bom dividir o guarda-chuva com você.

Esse texto não poderia ter outro nome
senão o seu.

Obrigada por tanto, meu bem.


''Você é muito linda e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé''

domingo, 12 de outubro de 2025

Caixa aberta, ou carta.

 



Olho para ti,
essa parte quase desprendida de toda composição.

Tu, que eu coloquei no bolso
para não deixar à mostra,
não por omissão,
mas porque eu precisava das minhas mãos livres
para abraçar e cuidar
do que estava exposto e sangrando.

Eu sempre soube que estava ali,
e que um dia eu teria que te encarar,
te diluir,
e me alimentar do que em ti é meu.

Não existe linearidade em integrar.

Hoje resolvi te olhar.
Em um domingo de sol,
te tiro do bolso.

Me conta,
aonde ainda dói?

Mas antes de começar,
te abraço.

Eu sei,
é preciso ter coragem
para servir à mesa
um cardápio de vulnerabilidades.

Mas olha,

Você não errou em querer o que quis.
Você não perdeu seu tempo.
Você não foi ingênua.

Não,
você não foi errada
em querer ser amada em voz alta.

E não,
você não pediu demais.

Você não foi menos forte
por não conseguir impor limites.

Não,
não tem nada de errado
com a sua sensibilidade
e com a sua forma de amar.

Que lhe sirva de lição:
o corpo sente antes da mente.

Você não errou em fazer planos,
em ser vulnerável.

Não,
não foi um erro
querer tanto aquele almoço em família,
apresentar sua mãe.

E está tudo bem,
você não precisa se culpar
por não ter se protegido
e ter perdido um pouco da voz.

Eu estou aqui por você.

Eu te enxergo,
eu te sinto,
e sua dor também é a minha,
e o que te sangra
também me sangra.

E depois de te tirar do bolso,
eu sei exatamente
aonde ainda dói em você.

E está tudo bem tropeçar às vezes,
os machucados nos ensinam novos caminhos.

Cuido de ti
e te permito descansar no meu abraço.

Vamos com cuidado
e no seu tempo,
porque um dia —
eu te prometo —
essa ferida será só uma cicatriz.

E quando tu a olhar,
será somente uma lembrança
do quão forte
e linda
você é.

E, aliás,
se é disso que você precisa,
eu te perdoou.

Assim como perdoei
todas as outras versões nossas
que passaram por aqui,
que estão diluídas
e integradas.


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Metamorfose


Me encontro com ela, às vezes.
Não mais com cores,
diria que em tela: Arte abstrata,

Fragmentada.

Seus olhos,
sua boca,
seu cabelo,
o contorno de sua forma —
não consigo mais compilar
em uma matéria inteira.

Diriam também:
Um filme mudo?
Os créditos iniciais anunciam:
Dirigido e escrito por Mayara.

E em tudo que se perdeu, confesso:
não me recordo mais
do tom da sua voz
ou do som da risada.

Uma metamorfose cognitiva.

Observo a chegada repentina com cuidado,
e reconheço as tantas partes dela
que sempre foram minhas.
Pouco ali lhe pertencia.

Às vezes, ela me encontra
quando tomo um café pela manhã
ou quando a minha rota
esbarra em sua rua.
Quando seu prato favorito
aparece em meu cardápio,

observo e às vezes sinto o corte,
uma linha fina vertical
que, quando toca,
dói sutil.

Às vezes a vejo vir, de longe,
e pergunto:
De novo aqui?

Projetado para todos verem:
o amor que eu sempre quis ter.
Assumo, em bom tom,
sou a única responsável
por esse roteiro fracassado.

Um soco no estômago
seria menos dolorido
e bem-vindo.

Te entrego os créditos,
te coloco em exposição,
nos recolho e integro.

Isto também é meu:
meu próprio amor
fundido à minha dor.

Emaranhados.
Não sangra,
não é mais abstrato.

Hoje, concreto
e integrado.