Te enxergo nas extremidades.
Te vejo sombra.
Eu — que conheci suas cicatrizes
e provei seu suor,
que conheci suas curvas
e te vi mar:
mergulhada em águas salgadas.
Você que me provou inteira,
hoje me vê nas extremidades também.
E pensar que um dia falamos:
''que sorte a nossa,
nos encontrarmos no meio de tanta gente.''
E foi.
Só deixou de ser.
Seu tempo,
o meu.
Mesmo que breve, existiu, viu?
Existe peso e eu o reconheço,
mas hoje carrego somente
um retrato meio apagado.
Acho que não tenho uma memória
tão boa quanto achava que tinha.
Dois perambulantes
em bilhões.
Não reconheço seus olhos.
Por ruas,
vamos nos esbarrar
e, por fim,
completamente desconhecidos.
Que loucura, né?
Nenhum panfleto de perdido
seria capaz de encontrar,
incapazes de desenhar nossos traços,
compilados tão cuidadosamente
por seus dedos
e os meus.
Tuas mãos em meu rosto.
Meus dedos contornando seus lábios.
Beijando seus olhos.
Vamos atravessar
uma década
ou duas.
Algum dia,
no almoço de domingo:
— Mayara.
E você se lembrará.
Irei embora
tão rápido
quanto apareci.
Não te conheço.
Você não me conhece.
Nos desfragmentamos.
Para ti
e para mim
não existe lamento.
Molhei os pés,
você molhou os seus.
Eu sempre quis mergulhar.
Me descobri mar
em sua escassez.
O pouco de ti,
conheci
desconhecendo.
Em suas ruas,
descobri
meu próprio lar.