Precisei me repartir em mil pedaços.
Me ver sangrar — carne exposta, crua.
Não há farmácia, médicos ou hospitais:
a cura está no olhar de perto.
E te olhei.
A princípio, receosa — com medo e vergonha.
Não te aceitei.
Quis voltar correndo às bandagens e cobrir cada pedaço de carne exposta.
Mas a fratura estava lá.
E o sangue que jorrava no chão não podia mais ser ignorado.
Como suturar?
Por onde começar?
Com os pedaços jogados ao chão,
tentei — por um segundo — nos olhar novamente.
E fiquei ali.
Estática.
Vidrada.
Observando esse corpo,
essas cicatrizes,
esses olhos,
essa boca —
tudo que compõe a matéria,
tudo que compõe a alma.
Um silêncio ensurdecedor
e o esmagar de nove letras:
Quem é você?
Depois de tanto observar, pude lhe ver com gentileza, amor e
respeito.
Deixei que o sangue jorrasse.
Que as bandagens caíssem.
E finalmente, te vi nua,
em plena luz do dia.
Exposta.
Já não havia mais espaço para medo ou vergonha.
Não tinha mais um lado a esconder —
apenas um ser humano, cru.
E foi ali que aprendi
a suturar os cortes com gentileza,
paciência,
cuidado.
Te cuidei.
Te abracei.
Te amei.
Te olhei por horas, dias, semanas, meses —
de perto,
com gentileza
e orgulho da sua força,
do seu amor,
de nós.
No meio do caos de se curar,
nomeei o amor.
E enquanto o lapidava,
Vi suas cores.
Logo eu, que só o pintava de vermelho,
descobri um arco-íris —
cores de uma aquarela inteira.
Reconheci tua forma — e ela tinha o meu nome.
Minhas curvas.
O tom da minha íris.
Meu sorriso.
O som da minha voz.
Te vi completa.
Não faltava um pedaço sequer —
todos em seu devido lugar.
E amei as marcas que contornavam nosso corpo.
Admirei a vulnerabilidade de ser.
De existir em completude.
Nos abraço pelo espaço-tempo.
Todas nós.
Todas importantes.
Todas necessárias.
Todas.
Nós.
Eu.
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