Quando estive em ti,
não pude te ver como és.
Não enxerguei tua totalidade.
Caminhei por ti cega, surda e muda.
Não admirei tuas ruas,
tuas águas,
não dancei tuas músicas.
8 anos!
Fui.
E voltei com marcas profundas, te amaldiçoei.
Te escondi debaixo de mil travesseiros.
Me ensinaram que teu Deus era meu inimigo.
Bom mesmo era o nosso, o mesmo que iria me punir por achar tão bonita a menina de vestido azul dançando maracatu em Olinda.
Mãe falava: temos que temer a Deus.
8 anos, e eu tive medo - o tempo inteiro.
Eu odiei tua arte.
Teu sotaque.
Tuas músicas.
Teus poemas de cordel.
E teus pratos não podiam me alimentar.
A mãe falava: “não pode comer, é idolatria.
Nosso Deus cristão vai te punir.”
8 anos, e tive medo do homem sentado numa cadeira de balanço em frente a uma casa de taipa.
Meu avô não era meu avô.
Meus tios, não eram meus tios.
E sem olhar para os lados, aceitei o que me disseram: aquela não era minha família, meu sangue.
Me ensinaram que minha família era feita de desconhecidos engravatados, homens de Deus, a belíssima tradicional família brasileira.
Não.
Meu avô, o homem preto, pai de santo,
jamais poderia ser meu avô.
Meus tios, filhos de Ogum,
jamais poderiam ser meus tios.
Meus pés não podiam pisar aquela terra.
Minhas mãos não podiam tocar suas mãos.
E meus olhos, jamais poderiam presenciar a beleza de uma gira.
Eu nunca abracei o homem sentado na cadeira de balanço – meu avô.
29 anos, e eu não tenho mais medo, te procurei embaixo dos mil travesseiros, encontrei uma parte minha ali. Como se um lapso no tempo se abrisse e eu pudesse te resgatar.
Te vi.
Linda, Senhor do Bonfim!
Andei por tuas ruas reluzentes.
Dancei tuas músicas.
Abençoados sejam:
Os orixás,
Buda,
Jesus.
Minha família também é
meu avô preto,
meus tios,
meus primos, filhos de Ogum.
Eu pertenço.
Eu sou.
29 anos, e lapidei com tanto cuidado essa parte tão bonita – minha.
Ainda que não possa tocar suas mãos, ou pisar em tua casa de taipa – que já não existe mais. Abraço tua alma, e desejo a ti, vô, muito axé, aonde quer que você esteja.
Minha mãe é minha mãe, meu pai é meu pai, meus irmãos são meus irmãos, meus tios são meus tios: Brasil ou Portugal.
Sangue.
Elo, raízes, espelhados pelo mundo.
Quando o meu corpo for pó, eu ainda estarei viva nos olhos, na escrita, ou nos trejeitos do próximo, que nunca se esqueçam: a gente vai e uma parte nossa sempre fica.
A minha família nunca foi e nunca será engravatados e falsos moralistas, mãe.
O nosso Deus é um só, é energia, é amor, é luz, é compaixão.
Te perdoou,
Me perdoou!
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