Depois de todas as luzes que eu venho apagando
Andando cômodo por cômodo,
Organizando e fechando portas.
Chego neste quarto,
Onde você está sentada na cama.
Eu o evitei por semanas e meses,
Porque te encontrar ali também significaria
Tocar uma última vez na ferida.
Sento aqui na ponta
E te olho nos olhos.
E aí, vamos conversar?
Olha, naquele domingo
Quando eu saí por aquela porta,
Confesso,
Prometi me esquecer de cada detalhe seu
Que estava impregnado na minha pele.
E foi exatamente isso que eu fiz —
Lembrar de ti com um borrão.
Censurada,
Te censurei na memória.
E o primeiro cômodo que entrei foi no meu quarto,
E lá, cuidei das minhas feridas,
Cada uma delas
Que tu fez questão de reforçar na minha pele naquela tarde.
Eu era a prioridade —
Me suturar.
Te vomitei,
E agora, depois de toda ânsia e enjoo,
Aqui, sentada frente a tu,
Ouça:
Somos todos um pouco quebrados, não é mesmo?
E está tudo bem,
Porque no fim,
O que nos torna únicos
São as nossas imperfeições.
Lembra daquela frase
Que partilhei contigo pós-terapia:
“De perto todo mundo é louco e feio.”
E por falar em louco,
Que loucura compilar na mesma pessoa
A minha ferida mais profunda
E ter que admitir que:
Te amar também foi uma forma de me amar.
E de tudo que eu já deixei ir —
Partes minhas que viveram isso,
Partes tuas, nossas.
Hoje eu deixo ir
A parte mais bonita do que tivemos,
Deixo ir
Para que eu possa ir também.
Então,
Obrigada pela estrela,
Pelo Natal.
Obrigada por compartilhar comigo
Suas paixões, seus medos, dores e sonhos.
Obrigada pelo acolhimento
E por me ajudar a ver
O quão bonitas são minhas raízes.
Obrigada por todos os pratos que me apresentou,
E por ter me dado a oportunidade
De lhe apresentar os meus também.
Por todo cuidado que teve com os meus.
Obrigada por todos os sorrisos,
Danças estranhas e abraços.
Obrigada.
P.S.: Suspeito que não era o córrego,
Nem as árvores —
Acho que era o som da nossa risada.
Agora preciso ir,
Mas antes de fechar a porta,
Te deixo um sorriso
E, como tu dizia:
Que Deus te acompanhe.
B-day.
Sua escrita é tão visceral, lúcida, terapêutica, madura e emocional...
ResponderExcluirVocê consegue colocar tanta profundidade nas palavras que me senti telespectadora do que escreve, dá pra sentir todas as emoções e particularidades dos momentos. Que sensibilidade bonita! Esse final doeu em mim; foi como ler o desfecho de um livro ou assistir ao último episódio de uma série.
Um verdadeiro rito de passagem psíquico, um encerramento consciente, limpo e amoroso de um ciclo.
Ela foi uma pessoa de sorte; nem todo mundo consegue olhar de frente para o que ama/amou e, ainda assim, deixar ir, sem apagar o outro para seguir.
Despedir-se com ternura é a forma mais profunda de força.
Amei seu texto.